quarta-feira, julho 18, 2007

Vísceras (episódio segundo)

Salomon encontrava-se em transição. Não se tratava de uma fase típica da adolescência, pois essa, segundo a norma, já deveria ter findado há alguns anos. Tratava-se antes de um momento de consolidação. O resultado inevitável, da experiência vital. Um momento em que as coisas têm de ficar a fazer sentido, em que o homem tem de estruturar-se novamente. Por dentro. Para que o mundo possa continuar a contar com a sua presença, sem que um e outro, mundo e homem, causem danos mútuos, por muito utópico que seja esse equilíbrio...
Começara tudo num dia pelas 21h. Já passara um mês inteiro, mas as coisas ainda se podem considerar "frescas". E que frescura! Ninguém iria adivinhar que uma simples saída para café, numa quinta-feira de um mês de Novembro, pudesse ser preenchida com uma amplitude de sentimentos tão volumosa. E que volume! Ela não seria vista por muitos como linda, mas não haveria olhar que não a notasse, sempre acompanhado de um pensamento pecaminoso e a respectiva tentativa introspectiva de o reprimir. "Não! Como podes?!", Salomon não era diferente de outro homem... Teria, talvez, poucos motivos para agir de forma espontânea, escaldado de algumas investidas infortuitas e cortantes, mas era usual deixar-se fluir na corrente do pensamento... Talvez isso o distinguisse. Talvez ele quisesse pensar que sim. Que era diferente, irreverente ao seu jeito. Naquele minuto não foi. "Porquê?". A dúvida apressa-lhe na mente sem uma explicação satisfatória. "Pensar não é pecado...", não? "Há muito que vendi a minha vaga junto d'Ele...", porquê? "Até podia ser desta... que estou eu a pensar?".
- Beer please!
E a reflexão continuou de forma serena na sua mente, olhos postos em Evelyn.
(continua)

segunda-feira, julho 09, 2007

Vísceras (Episódio primeiro)

Ambientem-se:
Era fim de tarde. Quase todos os sentidos estavam incomodados pela ausência vertiginosa de um vento que se apressava a contornar os objectos. Uma maresia brutal, algo que habitualmente obriga a contrair com veemência os músculos do rosto e todos os restantes. Um cansaço inexplicável para os que se aventuram a permanecer junto ao mar. Salomon era um deles.
Fascinado com o desaparecimento das pegadas caninas na areia húmida, deixara-se apoderar por aquela natureza viva. Ao ponto de abstracção do seu corpo, ignorando os alarmes. Os lábios já haviam mudado ligeiramente de cor, mas o seu olhar denunciava uma percepção em escala de cinzento. Alguém que não está a ver o mar: está a ver o mundo a desaparecer.
Seria difícil aos que olhassem, distinguir entre o vulto do seu polar e a aura da sua tristeza. Mas ninguém saberia que aquele homem, poderia ter-lhes mudado a vida...
(continua)

quinta-feira, julho 05, 2007

Cara lavada, casa arrumada...

É com enorme gosto e prazer na ponta dos dedos que pretendo presentear a comunidade Blogista com este rejuvenescer, qual pensamento iluminista, fénix de novo erguida das cinzas, Sebastião enevoeirado nas entranhas: o Verão!
Quem quero eu enganar? Mas tudo se encaixa: o poder Primaveril/hormonal deste ano, ficou algo adiado, em muito devido à nossa utilização dessas mesmas "fases climáticas" (só isto dá tema para outro blog), pelo que a panóplia de bizarrias comportamentais típicas, só agora se manifestam! Ele é chinelos, tops, pernas de pau, t-shirts, mini-skirts, epás, mini-meias, cabriolets, calipos, contratações de merda pró Benfica, cremes bronzeadores, máquinas de ar condicionado, muita, muita guita gasta em gota na fila para a praia mais próxima, enfim... uma série de coisas que, tendencialmente, se farão por esta altura e até um pouco mais tarde. Isso e isto: uma nova força motivacional, qual pirâmide de Maslow, uma necessidade explícita de escrevinhar para todo o mundo, sobre todo o mundo, o que inclui toda a comunidade executante de comportamento a "descair" pró bizarro, incluindo, gajas, claro está (na mais afectuosamente bizarra concepção da palavra, claro está está!).
De maneiras que... "é absolutamente inevitável esta cimeira" (retirado do discurso do Sr. Prime Minister ontem entrevistado em conjunto com o Presidentxi do Brasil, carinhosamente apelidado pela sua plebe com um nome feminino alusivo a um molusco cuspidor de tinta, não apenas na sua fase mentrual, mas também sempre que o arreliam em demasia, sobretudo negando-lhe a componente carnavalesca), entre o que nos vai na tola e o, já referido, prazer sentido na pontinha dos dedos... vá lá ver, pretende-se com este, apelar aos escribãos deste humilde canto, alguma actividade semelhante à sísmica, com epicentro nos respectivos hipotálamos, por forma a caracterizar da mais grotesca forma, a realidade circundante, com múltiplas figuras de estilo a embelezar, como a tradição exige e a inovação se esforça por igualar.
Considere-se o mote dado: pintou-se uma tela, "grafou-se" este belo exemplar pós-moderno-verborreico-identificante-desta-era-por-alguns-chamada-rasca-ista, de tal modo que até disfarçados, não seremos identificados. Mas adiante que se faz tarde... vamos a animar isto?
Venham elas!