terça-feira, setembro 18, 2007

Vísceras (episódio terceiro)

Evelyn entrara nessa noite naquela bar com um único objectivo: beber! Beber muito pelas mesmas razões de sempre. Esquecer que aquele dia existira, afogar nalgum nevoeiro passageiro um acontecimento demasiado pesado para ser suportado de pálpebras erguidas e pupilas dilatadas. Evelyn entrara nessa noite naquele bar sem pensar se o conhecia ou se vendia o que ela precisava. Ao terceiro shot de tequila percebia que não encontrava o antídoto correcto, nem vislumbrava na panóplia de medicamentos expostos, o seu.
- O que tem de mais forte?
- Aguardente, Whisky... não sei Senhora... - o empregado do bar hesitava nas palavras, treinado de ver rostos com aquela expressão. Sabia que, no final da noite, era para ele que iriam "as sobras".
Evelyn entrara nessa noite naquele bar e, aparentemente, não havia ninguém à sua volta. À medida que o seu copo se tornava mais curto, as pessoas iam desaparecendo. Os seus músculos também cediam. Decide sentar-se numa mesa e deixar o balcão. Encosta-se e finalmente começa a sentir no cérebro o alcóol - "E que tudo o mais vá pró inferno..." - tentava cantarolar já com os lábios sem controlo nervoso total.
Passaram-se 40 minutos desde que entrara naquele bar. Mas não era Evelyn quem contava o tempo. Ao fim de uma hora, Evelyn já não contava mesmo nada: somente os quadrados simétricos das figuras dos azulejos da mesa onde estava. Ora para cima, ora para baixo. Azuis, vermelhos, espelhados, negros, alguns molhados e riscados. Quadrados. Simples. 1, 2, 3, 4... finalmente como ela desejava. Encontrou a clareza da emoção na névoa cerrada do seu estado alcoolico. Quadrados. Nada mais. Remédio que demora a actuar, mas cura, por agora.